Arquiteta panambiense conquista o primeiro lugar no Mestrado em Arquitetura, Urbanismo e Paisagismo da UFSM

Panambi

Da realidade de Panambi para uma discussão presente na agenda internacional do planejamento urbano: pesquisa investigará como ciência, tecnologia e compreensão do comportamento humano podem transformar a maneira de planejar e desenvolver cidades

A arquiteta e urbanista panambiense Valentina M. Batista inicia uma nova etapa de sua trajetória acadêmica após conquistar o primeiro lugar no processo seletivo do Mestrado em Arquitetura, Urbanismo e Paisagismo da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). A pesquisa será desenvolvida na linha Planejamento e Fundamentos do Projeto, sob orientação do professor Olavo Avalone Neto, mestre e doutor pela Universidade de Chiba, no Japão, ele desenvolve pesquisas nas áreas de desenho ambiental, relações entre usuário e ambiente e desenho de espaços públicos. Sua trajetória acadêmica e profissional estabelece uma conexão direta com o projeto de Valentina, cuja proposta de pesquisa parte de uma pergunta bastante simples: como as cidades podem ser planejadas a partir das necessidades e da experiência real das pessoas que as utilizam diariamente?

Essa perspectiva dialoga com abordagens contemporâneas de User-Centered Design e Human-Centered Design, que colocam as pessoas, suas experiências, necessidades e comportamentos como elementos fundamentais no processo de concepção e desenvolvimento de soluções. No campo da arquitetura e do urbanismo, essa visão busca aproximar o planejamento urbano da maneira como os espaços são efetivamente percebidos, utilizados e apropriados.

A proposta dialoga com arquitetura, urbanismo, antropologia, psicologia ambiental, ciência de dados e tecnologias aplicadas ao ambiente construído. Ferramentas de análise espacial, sistemas de informação geográfica e diferentes tecnologias de coleta e análise de dados podem ampliar a compreensão sobre os padrões de uso dos espaços e apoiar decisões mais qualificadas.

O objetivo não é substituir os critérios técnicos que tradicionalmente orientam o planejamento urbano, mas ampliá-los a partir de evidências sobre comportamento, percepção, uso e apropriação dos espaços. Dessa forma, decisões sobre as cidades podem considerar não apenas parâmetros físicos e normativos, mas também a experiência cotidiana de quem vive nesses territórios.

A discussão acompanha transformações presentes no cenário internacional, em que pesquisadores e profissionais vêm buscando compreender como evidências sobre comportamento, saúde, mobilidade, segurança, acessibilidade, sustentabilidade e interação social podem contribuir para o desenvolvimento de cidades mais saudáveis, inclusivas, resilientes e responsivas às necessidades de seus habitantes.

Perguntas e respostas

Como trazer discussões globais sobre o futuro das cidades para a realidade de uma cidade do interior?

“Acredito que arquitetos enquanto planejadores urbanos precisam ser capazes de antecipar cenários. O tempo também precisa ser compreendido como um material de projeto. Assim como consideramos espaço, matéria, luz e estrutura ao conceber um ambiente, não podemos descartar a dimensão temporal. Uma cidade que projetamos hoje continuará sendo vivida daqui a 10, 20 ou 50 anos. Precisamos, portanto, pensar não apenas no espaço que estamos criando, mas nas transformações que ele deverá suportar, nas pessoas que irão utilizá-lo e nas necessidades que ainda nem conseguimos enxergar. É nesse ponto que acredito que uma cidade do interior pode participar de uma discussão muito maior. Não precisamos simplesmente reproduzir modelos pensados para grandes centros. Podemos investigar como princípios e conhecimentos que estão sendo discutidos internacionalmente podem ser interpretados, adaptados e aplicados às nossas próprias realidades.

O que significa um planejamento urbano centrado no usuário?

“Durante muito tempo, o planejamento das cidades foi estruturado principalmente a partir de parâmetros técnicos. Esses instrumentos são fundamentais para organizar o território, estabelecer critérios e garantir condições de segurança, infraestrutura e funcionamento urbano. O desafio está em compreender que eles, isoladamente, não são capazes de traduzir toda a complexidade da experiência de quem vive a cidade. Uma cidade pode atender perfeitamente a uma série de índices e normas e, ainda assim, produzir espaços pouco convidativos, inseguros, desconfortáveis ou desconectados das necessidades de seus habitantes. É nesse ponto que entra o planejamento centrado no usuário, não para substituir os critérios técnicos, mas para ampliá-los com evidências científicas sobre comportamento, percepção, uso e apropriação dos espaços. Isso significa perguntar não apenas se um espaço está adequado à norma, mas também se ele está adequado à vida.”

Como tecnologia e ciência entram nessa pesquisa?

“Hoje contamos com ferramentas capazes de produzir informações cada vez mais precisas sobre o ambiente construído. Ferramentas digitais podem ajudar a compreender padrões de uso dos espaços e apoiar decisões mais qualificadas. Acredito que a tecnologia não substitui o olhar humano mas sim, amplia nossa capacidade de compreender a cidade. Quando ciência, tecnologia e experiência humana são articuladas, conseguimos produzir informações que podem qualificar tanto o processo de projeto quanto as decisões relacionadas ao planejamento urbano.”

A nova etapa acadêmica da arquiteta também foi viabilizada por uma decisão da Administração Municipal de Panambi. Valentina, que atuava como servidora pública municipal e estava lotada no Museu e Arquivo Histórico Professor Hermann Wegermann (MAHP), recebeu licença para tratar de interesses particulares, permitindo seu afastamento das atividades profissionais para se dedicar ao mestrado.

“Quero deixar meu agradecimento à Administração Municipal de Panambi pela sensibilidade e pelo gesto de incentivo à minha trajetória acadêmica. Essa decisão foi fundamental para que eu pudesse assumir este novo desafio com dedicação. Também quero agradecer especialmente à coordenadora do MAHP, Ione Sauer, pela compreensão e pelo apoio durante o período em que fiz parte da equipe, assim como aos meus colegas de trabalho, que fizeram parte dessa etapa da minha trajetória.

O período em que atuei no Museu foi muito importante para minha formação. Trabalhar diretamente com patrimônio, memória e história local ampliou minha compreensão sobre a relação das pessoas com os lugares e sobre a importância que os espaços têm na construção da identidade de uma comunidade. Levo muito dessa experiência comigo para a pesquisa que agora inicio bem como, para a vida.

Para mim, esse apoio representa também a importância de instituições públicas incentivarem a formação e a produção científica de seus servidores. Investir na formação de quem pesquisa a cidade é também investir na própria cidade”, destaca Valentina.